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Nas ruas à noite…

06 Jun

Da parceria do Move-te com a Associação Conversar Amiga fazem parte as saídas nocturnas, que visam levar uma palavra amiga e um chá quente aos sem-abrigo de algumas zonas da Grande Lisboa.

A voluntária Ana Pacheco decidiu partilhar connosco a sua experiência de uma dessas saídas à noite:

“Desde que vim estudar para Lisboa, já tinha tido algum contacto com a realidade das ruas de Lisboa à noite, fazendo algumas saídas nocturnas para distribuição de bens alimentares, e outros, a comunidades sem-abrigo, através da minha Residência Universitária e das Missões Claretianas.

Mas, naquele dia de Abril, decidi vivenciar algo diferente, uma saída nocturna com outro objectivo: alimentar o coração e aquecer a solidão de quem vive nas ruas em vez de lhes apaziguar o estômago e aquecer o corpo… Assim o fiz.

Mais uma noite nas ruas de Lisboa, desta vez com o Projecto MOVE-TE em parceria com a Associação Conversa Amiga.
Conversas com sem-abrigo (ou “com-abrigo” sós que procuram o movimento da rua…) que o selo da noite gravou.
Conheci duas vidas (ou comecei a conhecê-las…) e senti a solidão e as desventuras que se escondem por baixo de uma capa de placidez ou de rebeldia e frontalidade brutas e cruas.

Não lhes darei o nome verdadeiro, pois, mais do que serem eles próprios, quero que aqui representem todos os homens e todas as mulheres sem-abrigo ou somente tão sós que saem das suas casas para procurar um pouco de companhia na noite… Para mim terão sempre o seu nome; aqui, serão apenas “Ele” e “Ela”.

Ele, placidamente dormindo no recanto de um pátio em frente do prédio onde disse ter vivido durante 30 anos, conta-nos as memórias dos tempos em que ia quase todos os dias ao cinema, alimentar essa sua paixão… “Boa noite, como estamos hoje? Quer um chá quentinho?”, foi tudo o que precisei para conversar com ele e ouvir parte da sua história de vida, partilhando algum tempo na noite fria.

Ela, rebelde, frontal, descarregando as amarguras da vida, que nega, sob uma capa de força e independência de tudo e todos. Convicta de si. Não cedendo aos conselhos ou opiniões de ninguém. Disse viver ali perto, sozinha, e gostar de sair todas as noites, até bem tarde, porque não consegue dormir… Disse também ter sete tatuagens coloridas feitas já perto dos 80 anos, mostrando-me algumas. Falou ininterruptamente durante quase 3h, numa dança de ataque e agradecimento, acompanhando-me quando me ia embora até termos que nos separar.

Conheci. Partilhei. Vi a realidade. Acima de tudo, senti. Senti o peso, senti as agruras da vida, senti a solidão, senti a gratificação de aprender, crescer, ouvir e aliviar, por breves instantes, o fardo de alguém. Gravei em mim aqueles momentos que sei que me mudaram.
No fim, chegada a casa, fui dormir exausta, mas muito maior por dentro.

A repetir, sem dúvida, e a recomendar a todos.”

Obrigado, Ana.

 
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Publicado por em 06/06/2012 em Actividades Move-te

 

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